Spotnet
A Receita Federal identificou que o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro direcionaram R$ 12,2 bilhões a fundos de investimento nos quais tinham algum tipo de participação entre 2017 e 2025. Os dados, parte do sistema e-Financeira, foram enviados à CPMI do INSS, encerrada em 27 de março de 2026, e mostram forte concentração de recursos em estruturas ligadas às gestoras Trustee e Reag — esta última investigada em operações da Polícia Federal no mesmo arco temporal, segundo o g1.
Panorama das aplicações
- Do total aplicado no período, R$ 6,3 bilhões (52%) foram para fundos ligados à Trustee e R$ 5,3 bilhões (44%) para veículos da Reag.
- As movimentações foram realizadas por meio de 184 contas, distribuídas em 67 fundos diferentes.
- No mesmo intervalo, o Banco Master sacou R$ 6,8 bilhões e Daniel Vorcaro retirou R$ 581 milhões.
As informações constam de documentos remetidos pela Receita Federal à CPMI que investigou supostos desvios em aposentadorias e pensões do INSS. A apuração jornalística do g1 (14.abr.2026) detalhou a concentração dos aportes e a relação com estruturas da Reag e da Trustee.
Apostas do Banco Master: FIDCs Scarlet e Montenegro
- O Master fez aplicações bilionárias em dois FIDCs dos quais é cotista controlador: Scarlet FIDC (administrado pela Reag) e Montenegro FIDC (administrado pela Trustee). Somadas, as alocações nesses dois veículos totalizaram R$ 4,9 bilhões.
- O Scarlet FIDC recebeu R$ 2,5 bilhões e possui cinco cotistas.
- O Montenegro FIDC recebeu R$ 2,4 bilhões e tem apenas um cotista: o próprio Banco Master, conforme documentos consultados pela imprensa.
Aportes de Vorcaro e o Hans II FIP MULT
- O principal destinatário dos recursos de Vorcaro foi o Hans II FIP MULT, da Reag Trust (grupo Reag). Segundo a Anbima, o patrimônio líquido do fundo era de R$ 3,6 bilhões em 31 de dezembro de 2025, com 28 cotistas — entre eles, Vorcaro — e R$ 1,2 bilhão aportado pelo empresário.
- O Hans II tinha como estratégia investir em outro fundo, o Jaya, que por sua vez alocava recursos no Jade. Este concentrava posições em ações da Golden Green Participações, empresa ligada à família Vorcaro e atuante no mercado de crédito de carbono.
- Em fevereiro de 2026, o Valor Investe noticiou que o fundo Jade reavaliou a zero um investimento de R$ 14,3 bilhões na Golden Green após reportagens sobre inconsistências. Em efeito cascata, o valor patrimonial do Hans II, exposto à cadeia Jaya/Jade, recuou de R$ 3,6 bilhões para R$ 83 milhões, segundo a cobertura jornalística.
Participação no Atlético-MG via Galo Forte FIP
- Entre os fundos, consta a posição de Vorcaro no Galo Forte FIP, veículo que detém participação na SAF do Atlético-MG. O fundo recebeu R$ 240 milhões de aporte do empresário e, em dezembro de 2025, tinha patrimônio avaliado em R$ 293 milhões, conforme os documentos enviados à CPMI.
Operações com ganhos extraordinários em 2023
- Documentos da declaração de Imposto de Renda de 2024, enviados pela Receita à CPMI, mostram operações de compra e venda de cotas envolvendo fundos geridos pela Reag com ganhos expressivos no ano de 2023.
- Em 27 de dezembro de 2023, Vorcaro comprou cotas do Hans II por R$ 2,5 milhões. Em 28 de dezembro, vendeu os mesmos ativos ao fundo Itabuna por R$ 294,5 milhões, apurando cerca de R$ 292 milhões de ganho — valorização de 11.474% em 24 horas.
- Em 31 de maio de 2023, adquiriu R$ 10 milhões em cotas do Hans II e, em 7 de junho, vendeu ao Astralo 95 (fundo multimercado administrado pela Reag) por R$ 160 milhões, lucro de R$ 150 milhões — valorização de 1.500%.
- Somadas, as duas operações renderam R$ 441.955.496,90, equivalente a 36 vezes o capital investido (3.523%), segundo os registros enviados à CPMI e reportagens do g1.
Transferência de ativos para offshore em 2025
- Em 2025, Vorcaro transferiu R$ 700 milhões em ativos do Banco Master para uma offshore nas Ilhas Cayman. De acordo com o g1, R$ 555,7 milhões desse total saíram do GSR Fundo de Investimento, cujo acionista único é o Astralo 95.
Investigações e medidas regulatórias
- A Reag foi alvo da Operação Compliance Zero — a mesma que apura movimentações atípicas envolvendo o Banco Master e levou à prisão de Daniel Vorcaro em 4 de março de 2026, segundo o g1. As suspeitas incluem estruturação e administração de fundos para inflar resultados, ocultar riscos e lavar dinheiro.
- Em janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação da Reag Investimentos, conforme noticiado pelo g1.
O que está em jogo
Os dados da Receita Federal encaminhados à CPMI do INSS, combinados com as apurações policiais e medidas do Banco Central, evidenciam a centralidade de estruturas de investimento — especialmente FIDCs e FIPs ligados a Reag e Trustee — nas operações financeiras do Banco Master e de Daniel Vorcaro entre 2017 e 2025. As investigações seguem em curso e podem ter desdobramentos sobre a governança de fundos, critérios de avaliação de ativos ilíquidos e a supervisão do mercado de capitais, enquanto as autoridades analisam fluxos, reavaliações patrimoniais e eventuais conflitos de interesse apontados nos documentos oficiais e reportagens.
Fontes: g1, Valor Investe, Anbima e documentos da Receita Federal enviados à CPMI do INSS.
