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O plano de investimento do longa-metragem “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, oferecia cotas que variavam de US$ 500 mil a US$ 1,1 milhão e trazia como atrativo uma “oportunidade de imigração” aos Estados Unidos, uma promessa incomum no mercado audiovisual. As informações foram reveladas pelo Intercept Brasil na sexta-feira (15 de maio de 2026) e confirmadas pela TV Globo.
Oferta de cotas e promessa de imigração
Segundo o Intercept, o material de captação descrevia um “atalho” para que investidores obtivessem o direito a visto de residência permanente nos EUA. Esse benefício aparecia apenas no pacote mais caro, de US$ 1,1 milhão (cerca de R$ 5,5 milhões na cotação atual). Para atrair aportes, o orçamento do filme foi dividido em:
- 40 cotas de US$ 500 mil, totalizando US$ 20 milhões (mais de R$ 100 milhões);
- 5 cotas de US$ 1 milhão (cerca de R$ 5 milhões) cada.
O investidor que adquirisse o pacote de US$ 1 milhão teria assento no conselho do filme, com direito a opinar sobre a produção.
Retorno prometido e projeções de receita
Ainda conforme o Intercept, o plano previa que os investidores receberiam de volta o valor aportado acrescido de 20%. Após a quitação desse montante, o lucro remanescente seria dividido igualmente (50% para os investidores e 50% para os produtores). O documento projetava três cenários possíveis para a receita global do longa, sem detalhá-los no material divulgado.
Papel de Eduardo Bolsonaro e dos produtores
O deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) figurou como produtor-executivo do projeto e tinha entre suas atribuições a captação de recursos. A função consta em contrato assinado digitalmente por ele em 30 de janeiro de 2024, segundo o Intercept; a TV Globo confirmou as informações. O documento também inclui o deputado federal Mário Frias (PL-SP) como produtor-executivo e aponta a GoUp Entertainment, sediada nos Estados Unidos, como produtora.
De acordo com trechos divulgados e confirmados, os produtores-executivos deveriam se dedicar a atividades como:
- apoio às considerações estratégicas de financiamento;
- preparação de informações e documentação para investidores;
- identificação de fontes de funding para cinema, incluindo créditos e incentivos fiscais, colocação de produtos e patrocínios.
Recursos de Daniel Vorcaro e investigação da PF
Na quarta-feira (13), o Intercept publicou que o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ajudou a financiar “Dark Horse” e que as tratativas incluíram contatos diretos com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho do ex-presidente e pré-candidato à Presidência. A reportagem exibiu áudio em que Flávio pede recursos e pressiona por pagamentos; segundo o site, Vorcaro chegou a desembolsar R$ 61 milhões. A TV Globo também confirmou essas informações.
Vorcaro está preso em Brasília, acusado pela Polícia Federal de chefiar um esquema bilionário de fraudes financeiras. A PF investiga, ainda, se valores que ele teria repassado para o filme foram usados para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, conforme noticiou o blog da jornalista Andreia Sadi (G1) na quinta-feira (14). Uma das linhas de apuração busca esclarecer se os recursos tinham como destino oficial a produção do longa ou se serviram de justificativa para transferências destinadas a gastos pessoais do ex-deputado em território norte-americano.
O que dizem os envolvidos
Em publicação na internet na quinta-feira (14), Eduardo Bolsonaro afirmou que seu status migratório nos Estados Unidos o impediria de receber dinheiro proveniente de um fundo de investimento ligado a Daniel Vorcaro. Eduardo vive nos EUA desde fevereiro do ano passado e não retornou ao Brasil desde então.
Próximos passos
O caso conecta a captação privada para o audiovisual a promessas atípicas no mercado — como a “oportunidade de imigração” — e a investigações sobre a origem e o uso de recursos. A Polícia Federal segue apurando as transferências atribuídas a Daniel Vorcaro, enquanto a documentação do projeto “Dark Horse”, divulgada pelo Intercept e confirmada pela TV Globo, detalha a estrutura de investimento proposta aos potenciais aportadores.
