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Os inquietantes paralelos entre 2008 e 2026: uma nova crise financeira está acaminho?

Por Spotnet

Sinais simultâneos de estresse em crédito privado, alta de energia e avaliações concentradas em empresas de tecnologia reacenderam comparações com 2008 e levantaram dúvidas sobre a capacidade dos formuladores de política de conter uma nova crise global. Enquanto autoridades como a vice‑governadora do Banco da Inglaterra, Sarah Breeden, reconhecem semelhanças e apontam riscos de alavancagem no sistema não bancário, vozes do mercado, como Larry Fink (BlackRock), discordam que haja risco sistêmico iminente. O pano de fundo é de mercados acionários próximos às máximas, petróleo acima de US$ 100 e menor espaço fiscal e político para respostas coordenadas.

Lembranças de 2008

Em 15 de setembro de 2008, Bobby Seagull chegou cedo ao escritório do Lehman Brothers em Canary Wharf, Londres, e viveu de perto o colapso que marcaria a crise financeira global. A falência do banco simbolizou uma sequência de quebras e uma das recessões mais longas desde a Segunda Guerra. Antes do desfecho, sinais já vinham de 2007, com perdas em hipotecas de alto risco nos EUA, congelamentos de resgates em fundos do Bear Stearns, BNP Paribas e outros, e a paralisia de empréstimos interbancários – a “crise de crédito” que propagou o choque pelo sistema.

Crédito privado no centro do debate

Hoje, o foco desloca-se para os fundos de crédito privado, entidades que oferecem alternativa ao financiamento bancário tradicional. Grandes gestoras como BlackRock, Blackstone, Apollo e Blue Owl enfrentaram pedidos bilionários de resgates e, em alguns casos, restringiram saques. Reguladores veem paralelos: segundo Sarah Breeden (Banco da Inglaterra), esse mercado “cresceu rapidamente, ainda não foi testado por adversidades e é pouco compreendido”. A preocupação recai sobre a “alavancagem sobre alavancagem”, camadas de dívida que podem amplificar perdas em momentos de estresse.

Mohammed El‑Erian, consultor-chefe da Allianz e ex-CEO da PIMCO, avalia que o risco de outra crise está sendo subestimado. Para ele, as restrições impostas aos bancos após 2008 estimularam a expansão do crédito privado. “De repente, todos que emprestam dinheiro querem seu dinheiro de volta ao mesmo tempo”, descreve, alertando para a possibilidade de instabilidade.

Larry Fink, CEO da BlackRock, discorda que o crédito privado represente ameaça à economia mundial. Ele argumenta que os problemas atuais afetam uma fração pequena do mercado e ressalta que as instituições financeiras estão hoje mais seguras do que em 2007–08. Ainda assim, sua própria gestora impôs limites a resgates em fundos de crédito privado, em linha com o movimento de outras casas.

Energia e geopolítica reacendem pressões

Outra semelhança com 2008 vem do lado da energia. À época, o Brent saltou de cerca de US$ 50 por barril no início de 2007 para US$ 100 no fim do ano, atingindo US$ 147 em julho de 2008, impulsionado pela demanda chinesa e tensões envolvendo o Irã. Agora, os preços voltaram a superar US$ 100, em meio a alertas de que podem subir mais se o conflito com o Irã — que fechou o Estreito de Ormuz, artéria energética global — não tiver solução rápida.

Para Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia, o fechamento do Estreito de Ormuz é “a maior crise de segurança energética da história”, mais grave que os choques de 1973, 1979 e 2022 juntos. Apesar da alta de mais de 50% desde antes do conflito, os preços ainda estão aquém, em valores atuais, do pico pré-crise de 2008 (equivalente a cerca de US$ 190 por barril). Os mercados acionários, por sua vez, seguem próximos às máximas, em contraste com 1973, quando o choque do petróleo derrubou em 40% as bolsas dos EUA do topo ao fundo.

Tecnologia, IA e concentração de riscos

A rápida valorização de ações ligadas à inteligência artificial elevou a concentração do S&P 500: 37% do valor do índice está em sete empresas, incluindo Nvidia, Microsoft, Alphabet e Amazon — também grandes investidoras em infraestrutura de IA. Estima-se que mais de US$ 2 trilhões tenham sido direcionados à IA, num movimento descrito por Bill Gates como “frenesi”. Isso significa que investidores em fundos de índice, deliberadamente ou não, estão mais expostos ao setor.

Uma correção nessas companhias afetaria poupadores e fundos de pensão em vários países e poderia abalar a confiança de empresas e consumidores. O paralelo histórico mais citado é o estouro da bolha “ponto com”: o Nasdaq caiu quase 80% entre março de 2000 e outubro de 2002, desencadeando recessão em 2001.

Menor espaço de manobra para políticas públicas

Em 2008, a combinação de injeção de capital público em bancos, garantias a depósitos e cortes coordenados de juros ajudou a estabilizar o sistema. Hoje, há dúvidas sobre a disponibilidade dessas ferramentas. A dívida do Reino Unido, por exemplo, saltou de menos de 50% da renda nacional em 2008 para patamar próximo de 100%, após resgates, apoio na pandemia e subsídios de energia em 2022, limitando a capacidade de endividamento. O FMI também alerta que o “espaço para políticas públicas foi reduzido”.

Cooperação internacional mais frágil

Outro ponto de incerteza é a coordenação entre países. Em 2008–09, cúpulas emergenciais em Washington e Londres desenharam respostas conjuntas e, segundo o então premiê Gordon Brown, evitaram uma depressão. Hoje, divergências sobre política comercial, Otan e até temas geopolíticos sensíveis desafiam iniciativas multilaterais. Em contexto de guerra na Europa, tensões comerciais entre EUA e China e a política “América Primeiro” do presidente dos EUA, Donald Trump, a cooperação pode ser mais difícil de replicar. O FMI ressalta que a “cooperação internacional está mais fraca”.

Riscos compostos e onde o sistema é mais resiliente

Para Sarah Breeden, um “grande choque macroeconômico”, somado a uma perda de confiança no crédito privado e a um reajuste em avaliações de IA e outros ativos de risco, está no radar dos cenários de estresse do Banco da Inglaterra. Ao mesmo tempo, ela pondera que os bancos estão “muito mais capitalizados agora”, com maior capacidade de absorver choques do que em 2008.

Mohammed El‑Erian concorda parcialmente: não vê hoje o sistema bancário — e, portanto, os depósitos e o sistema de pagamentos — no mesmo risco de 2008, mas adverte que o sistema financeiro pode agravar fragilidades econômicas e empurrar a economia para a recessão. Caso isso ocorra, ele lembra que os mais vulneráveis tendem a ser os mais atingidos. Bobby Seagull, hoje professor de matemática, observa que os mercados estão ainda mais complexos, e que não se sabe onde podem estar as “surpresas desagradáveis”.

Encerramento

As semelhanças com 2008 existem, mas os contornos do risco mudaram: menos nos bancos, mais no financiamento fora do sistema bancário; menos no preço à vista do petróleo, mais na interseção entre energia e geopolítica; e uma nova variável de peso — a concentração de valor em poucas gigantes de tecnologia impulsionadas pela IA. A resiliência superior dos bancos e a liquidez dos mercados convivem com menor espaço fiscal e uma cooperação internacional mais frágil. Para investidores e autoridades, o desafio é monitorar a alavancagem no crédito privado, os desdobramentos no Estreito de Ormuz e a sustentabilidade das avaliações de tecnologia — e avaliar se as ferramentas disponíveis hoje bastam para conter um choque que, se vier, poderá cobrar seu preço primeiro dos mais vulneráveis.

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