Relançado no início de maio, o Novo Desenrola Brasil (Desenrola 2.0) tenta frear a inadimplência em um cenário de endividamento recorde das famílias e a poucos meses das eleições presidenciais. Dois anos após o fim da primeira edição, em maio de 2024, o país registrou aumento de 10,3 milhões de inadimplentes, chegando a 82,8 milhões de pessoas, segundo dados da Serasa divulgados pelo g1. O governo atribui a alta a um “efeito sanfona” ligado às oscilações da Selic e aos impactos remanescentes da pandemia, enquanto analistas apontam causas estruturais como inflação de alimentos, custo de vida elevado, renda insuficiente, crédito caro e lacunas de educação financeira.
O que foi a primeira edição
- Vigência e público: o primeiro Desenrola, realizado de maio de 2023 a março de 2024, priorizou dívidas negativadas entre 2019 e 2022 com valor atualizado inferior a R$ 20 mil. Na faixa 1, atendeu pessoas com renda de até dois salários mínimos ou inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), com dívidas de pequeno valor. Na faixa 2, contemplou quem recebia até R$ 20 mil mensais e tinha dívidas em bancos.
- Resultados no setor: empresas de recuperação de crédito relataram efeitos imediatos. Na Recovery, cerca de 500 mil dívidas bancárias foram quitadas; foram 290,4 mil acordos, beneficiando 278 mil clientes. “Observamos uma demanda reprimida de consumidores dispostos a regularizar suas dívidas quando encontram condições adequadas”, afirma Helena Passos, head de dados e planejamento da companhia.
- Fôlego curto: apesar do alívio momentâneo, os indicadores gerais mostraram pouca melhora de longo prazo. Após o programa, grande parte da renda das famílias continuou comprometida com gastos básicos (alimentação, moradia e transporte), o que empurrou muitos de volta à inadimplência.
Por que a inadimplência voltou a subir
- Ambiente macroeconômico: de acordo com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a alta reflete um “efeito sanfona” provocado por oscilações na taxa básica de juros e pelos efeitos persistentes da Covid-19, quando o desemprego subiu e a renda ficou estagnada. Ele também cita o quadro internacional, marcado por conflitos no Oriente Médio e a guerra na Ucrânia, que elevaram preços do petróleo, pressionaram a inflação global e retardaram a queda dos juros no Brasil.
- Pressões domésticas: especialistas avaliam que o problema vai além dos juros. A combinação de inflação persistente — com destaque para alimentos —, custo de vida elevado, renda insuficiente e crédito caro sustentou a inadimplência. Segundo o g1, esse ambiente ainda persistia em 2026, apesar da melhora recente do mercado de trabalho, insuficiente para recompor o poder de compra.
- Crédito fácil, preparo insuficiente: a rápida digitalização do sistema financeiro ampliou o acesso a empréstimos e cartões, sem o devido preparo da população, observa a especialista em finanças Milene Dellatore, sócia-diretora do Grupo Mide.
- Perfil das dívidas: o setor financeiro concentra 47% das dívidas, de acordo com a Serasa, foco do Desenrola 2.0.
O que muda no Desenrola 2.0
- Público-alvo e medidas: a nova fase prioriza famílias de menor renda, voltadas a quem ganha até cinco salários mínimos. As instituições financeiras passaram a “desnegativar” dívidas de até R$ 100. O relançamento também incluiu a possibilidade de usar parte do FGTS para pagamento de dívidas, segundo o g1.
- Estratégia do governo: para Durigan, o programa responde ao avanço da inadimplência após o fim da primeira edição e busca alinhar renegociações a uma expectativa de novo ciclo de cortes de juros. “A gente deu um primeiro tratamento, mas não foi suficiente porque os juros voltaram a crescer. Mas o ideal é que isso seja pontual, não recorrente. As pessoas têm que pagar suas dívidas”, disse o ministro.
Balanço inicial da nova fase
- Em balanço divulgado nesta quinta-feira (21/5), o Ministério da Fazenda informou:
- 449 mil dívidas quitadas à vista por famílias, com desconto médio de 85%. Do total de R$ 1 bilhão, foram pagos R$ 154 milhões.
- 685,5 mil dívidas refinanciadas, também com desconto médio de 85%. De um volume de R$ 9 bilhões, foram refinanciados R$ 1,3 bilhão.
- Segundo o governo, cerca de 1 milhão de pessoas já foram beneficiadas pelo programa.
O que dizem os especialistas
- Efeito limitado sem reformas: analistas afirmam que, sem mudanças estruturais, programas de renegociação tendem a ter alcance temporário. Educação básica e financeira é apontada como um dos pilares para reduzir o endividamento no longo prazo. “Esse talvez seja o principal gargalo, o mais difícil de implementar, mas o mais importante”, avalia o economista Tiago Velloso.
- Renda e formalização: para Velloso, a geração de vagas precisa vir acompanhada de aumento do rendimento médio e redução da informalidade para melhorar, de forma duradoura, a capacidade de pagamento das famílias.
Por que o número de endividados aumentou
O primeiro Desenrola trouxe alívio pontual, mas o fim do programa coincidiu com um ambiente de inflação de itens essenciais, renda ainda insuficiente e crédito caro — combinação que manteve o orçamento das famílias sob pressão. Somam-se a isso a oscilação dos juros, choques externos que encareceram energia e combustíveis e o avanço do crédito digital sem educação financeira equivalente. O resultado foi a volta ao atraso no pagamento de contas e a elevação do contingente de inadimplentes para 82,8 milhões em 2026, 10,3 milhões a mais que em maio de 2024, segundo a Serasa.
Encerramento
O Desenrola 2.0 busca mitigar a inadimplência com descontos elevados, “desnegativação” de dívidas muito pequenas e novas frentes, como o uso do FGTS, com foco nas famílias de menor renda. Os primeiros números indicam adesão e alívio imediato para parte dos devedores. A trajetória sustentável de queda do endividamento, porém, deve depender de fatores estruturais — evolução da renda, custo do crédito, inflação e educação financeira — e do ambiente macroeconômico nos próximos meses.
