A Azul vai intensificar cortes de capacidade para enfrentar a pressão dos preços do combustível de aviação, que subiram em meio à guerra no Irã, e seguirá reduzindo voos para preservar caixa em um cenário incerto. A informação foi dada pelo presidente-executivo da companhia, John Rodgerson, em entrevista à Reuters, antes de uma reunião de líderes de companhias aéreas globais no Rio de Janeiro.
Ajustes na malha: foco em frequências e hubs
Segundo Rodgerson, os maiores grupos do setor já vêm ajustando a oferta para se alinhar a custos mais altos e à demanda, e a Azul seguirá na mesma direção, avançando além dos cortes iniciais realizados quando se esperava um desfecho mais rápido do conflito. No segundo trimestre, a maior parte das reduções da Azul ocorreu em rotas internacionais, com ajustes adicionais concentrados em frequências domésticas, e não na retirada de cidades inteiras.
“Você voa para Curitiba seis vezes por dia? Talvez, com esses preços de combustível, devessem ser quatro”, disse o executivo, citando como prioridade os principais hubs da empresa em Campinas, Belo Horizonte e Recife.
Ele ressaltou que, por ora, nenhuma cidade foi excluída da malha, mas essa possibilidade “está sempre em pauta”. O primeiro passo, explicou, é reduzir a utilização das aeronaves e cortar frequências, especialmente quando “os preços dos combustíveis dobram”, para evitar operar com aviões voando 13 a 14 horas por dia em um ambiente de custos elevados.
Custos sob pressão e medidas de alívio
O combustível de aviação é um insumo sensível para o setor. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), o querosene de aviação (QAV) passou a representar cerca de 45% do custo operacional das companhias. No fim de maio, o governo federal renovou os subsídios ao QAV, prorrogando a isenção de tributos até 31 de julho. Em 1º de junho, a Petrobras anunciou redução de 14,2% no preço médio de venda do QAV para distribuidoras — queda de R$ 0,93 por litro em relação ao mês anterior.
Apesar dessas medidas, Rodgerson afirmou que os preços devem seguir pressionados no segundo trimestre, período sazonalmente mais fraco. A empresa vê, contudo, espaço para sustentar tarifas mais altas à medida que a demanda se fortaleça no terceiro e quarto trimestres.
Estrutura financeira e adaptação
Após uma ampla reestruturação de dívida, a Azul afirma ter um balanço mais robusto para atravessar a volatilidade. A companhia encerrou, em fevereiro, o processo do Capítulo 11 nos Estados Unidos, com apoio da United Airlines e da American Airlines, movimento que, segundo o CEO, coloca a empresa em posição relativamente mais forte que alguns pares para ajustar a capacidade conforme necessário.
Perspectivas
A estratégia da Azul combina preservação de caixa, priorização de rotas e hubs mais rentáveis e calibragem fina da oferta diante dos custos de combustível e da evolução da demanda. A companhia projeta que a pressão sobre o QAV persista no curto prazo, mas aposta em um segundo semestre mais favorável para o setor, com possibilidade de manutenção de tarifas em patamar mais alto se a demanda se consolidar. Novos ajustes de malha podem ocorrer caso o cenário internacional siga adverso.
