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O crédito direcionado, que conta com juros menores e prazos mais longos, voltou a ganhar peso no sistema financeiro durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo série histórica do Banco Central (BC), a participação dessas linhas atingiu 43,1% do volume total de crédito em março de 2026, o maior nível desde o fim de 2019. O avanço, após recuo no governo anterior, reduz a potência da política monetária e é apontado pelo BC como um dos fatores que mantêm a taxa básica Selic em patamar elevado, atualmente em 14,5% ao ano. Em termos reais, a taxa figura entre as mais altas do mundo, segundo levantamento da imprensa com dados de mercado.
O que é crédito direcionado
- O crédito direcionado é regulamentado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e tem destinação obrigatória a finalidades específicas, como financiamento imobiliário, rural e de infraestrutura.
- Essas linhas costumam ter juros menores que os praticados no mercado e prazos mais extensos, devido a subsídios governamentais, fontes de funding mais baratas e, em alguns casos, garantias públicas.
Efeito sobre a política monetária
- De acordo com o BC, a maior participação de linhas não atreladas diretamente à Selic reduz a capacidade de a política monetária afetar o custo do crédito na economia como um todo. Para compensar, a autoridade monetária mantém a taxa básica em patamar mais alto do que manteria em um sistema predominantemente de taxas livres.
- A Selic é a taxa de juros de referência para operações interbancárias e baliza diversas taxas cobradas de consumidores e empresas. Quando sobe, encarece o crédito e tende a reduzir consumo e investimentos, ajudando no controle da inflação; quando cai, barateia o crédito e estimula a atividade.
- Em 2023, o então presidente do BC, Roberto Campos Neto, recorreu à analogia da “meia-entrada no cinema” para explicar que, quanto maior o volume de operações com juros favorecidos, maior precisa ser o juro básico médio para equilibrar o “tubo” do crédito.
- Em audiência no Senado neste mês, o atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou haver um componente “idiossincrático” que ajuda a explicar a combinação de juro real perto de 10% ao ano, inflação acima da meta e desemprego em mínima histórica.
Evolução recente e dados
- Na série do BC iniciada em março de 2011, a taxa média de juros do crédito direcionado foi de 9,3% ao ano até março de 2026.
- No mesmo período, a taxa média dos empréstimos com recursos livres atingiu 38,8% ao ano — quase quatro vezes a do crédito direcionado.
- Após queda durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a fatia do crédito subsidiado voltou a crescer no terceiro mandato de Lula. Segundo analistas, com os limites de gasto impostos pela regra fiscal e em um ano eleitoral, o governo reforçou linhas com juros mais baixos, elevando a participação do crédito direcionado.
- A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) avalia que o aumento dessas linhas, com taxas abaixo de mercado, diminui a potência da política monetária. Ao mesmo tempo, pondera que a aceleração recente é menos intensa do que a verificada no início da década de 2010 e que a participação atual segue aquém dos cerca de 50% observados entre 2016 e 2017.
Comparação internacional
- O BC ressalta que a comparação internacional é limitada, porque a maior parte dos países não divulga estatísticas específicas de crédito direcionado. Em estimativas com dados disponíveis para economias comparáveis (como Colômbia, China, Coreia do Sul, México e Peru), o Brasil, com aproximadamente 43% do crédito total em linhas direcionadas, supera países como o México (cerca de 26%), enquanto a maioria opera com percentuais abaixo de 5%.
Reações e debate fiscal
- Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, em vez de ampliar de forma intensa linhas específicas subsidiadas, o governo deveria priorizar um corte mais robusto de gastos, favorecendo a queda da Selic e a redução do custo do crédito de forma generalizada.
- O debate ocorre em meio ao esforço do BC para ancorar expectativas de inflação, enquanto o governo busca impulsionar setores prioritários com taxas menores.
Contexto institucional
- As decisões sobre a Selic são tomadas pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que define a taxa básica com foco no cumprimento das metas de inflação estabelecidas pelo CMN. A Selic serve de referência para o custo do dinheiro na economia e influencia diretamente as condições de crédito.
Encerramento
O aumento da participação do crédito direcionado reabre uma discussão conhecida no país: como calibrar o uso de subsídios setoriais sem comprometer a eficácia da política monetária. Com a Selic em 14,5% ao ano e os juros reais entre os mais elevados do mundo, as decisões do Copom seguirão condicionadas à dinâmica do crédito, ao comportamento da inflação e às perspectivas fiscais, enquanto governo, mercado e sociedade discutem o papel e os limites do crédito favorecido no crescimento econômico.
