Vídeos de negociações de carros financiados que viralizaram nas redes sociais reacenderam uma dúvida comum entre consumidores: afinal, quanto um financiamento realmente custa? Especialistas alertam que olhar apenas para a taxa de juros ou para o valor da parcela pode levar a conclusões equivocadas. O motivo é o Custo Efetivo Total (CET) — indicador obrigatório que reúne, além dos juros, tarifas, seguros e outros encargos, e que está presente em todas as modalidades de crédito.
O que é o CET e por que ele importa
O Custo Efetivo Total (CET) é a taxa que expressa o custo real de um empréstimo ou financiamento. Ele consolida todas as despesas da operação, permitindo comparar, de forma mais precisa, diferentes ofertas de crédito. Por determinação do Banco Central do Brasil, bancos e instituições financeiras devem informar o CET antes da contratação, junto com uma planilha que detalhe cada item e seu peso no valor final da dívida. Esse demonstrativo também deve constar de forma clara no contrato.
O que entra no cálculo
- Juros: são o principal componente do CET e, ao longo do tempo, concentram a maior parte do valor pago. No crédito em geral, costumam ficar entre 30% e 60% ao ano; no cartão de crédito — especialmente no rotativo — podem superar 400% ao ano, tornando-se uma das modalidades mais caras do mercado.
- Tarifas e tributos: taxas de cadastro e o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) entram na conta.
- Seguros e serviços: coberturas e serviços adicionais vinculados ao contrato também são somados ao custo total.
Exemplo prático
Na prática, o CET revela quanto o crédito realmente custa. Em um financiamento de R$ 1.000, por exemplo, com juros de 12% ao ano, a inclusão de taxas como cadastro e IOF pode elevar o custo total para cerca de 43,9% ao ano. O dado ilustra como pequenas variações e encargos adicionais alteram de forma relevante o valor efetivo pago pelo consumidor.
Transparência e direitos do consumidor
A legislação brasileira obriga a divulgação clara do CET em todas as etapas da contratação. Segundo Stefano Ribeiro Ferri, especialista em direito do consumidor, a transparência é essencial para evitar prejuízos. De acordo com ele, a omissão de informações, a inclusão de serviços sem consentimento ou a chamada venda casada podem configurar práticas abusivas.
“Se houver falta de transparência ou cobrança indevida, o consumidor pode buscar a revisão do contrato na Justiça. Em alguns casos, ele pode até ser anulado ou ajustado”, afirma.
Cenário de endividamento elevado
O tema ganha relevância em meio ao alto endividamento das famílias. Em março, 80,4% dos lares brasileiros tinham dívidas a vencer, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o maior nível da série histórica. A inadimplência — contas em atraso — ficou em 29,6%, estável em relação a fevereiro, mas acima dos 28,6% de um ano antes. Mesmo com o início da queda da taxa Selic, os juros seguem altos, o que mantém o crédito caro e pressiona o orçamento. A alta dos combustíveis também encarece o custo de vida e tende a estimular o uso do crédito.
Como avaliar se o crédito vale a pena
- Compare pelo CET, não só pela parcela: duas ofertas com o mesmo valor de prestação podem ter custos finais distintos.
- Exija a planilha detalhada: verifique cada item cobrado, especialmente seguros e serviços adicionais.
- Questione cobranças acessórias: recuse produtos não solicitados e verifique se são de contratação obrigatória.
- Planeje o prazo: prazos maiores diluem a parcela, mas elevam o custo total.
- Substituição de dívida: pode fazer sentido trocar uma dívida mais cara por outra mais barata, desde que a análise seja cuidadosa e transparente quanto ao CET. “Não é o momento de assumir novas dívidas, a não ser para substituir uma mais cara por outra mais barata — e, ainda assim, com análise cuidadosa”, afirma Crivelaro.
Juros abusivos: o que observar
Não há, em lei, um percentual fixo para caracterizar juros abusivos. Na prática, eles são considerados abusivos quando estão muito acima da média de mercado ou quando há irregularidades contratuais. A orientação é comparar propostas pelo CET, conferir as condições do contrato e, diante de dúvidas ou cobranças indevidas, buscar órgãos de defesa do consumidor ou assistência jurídica para eventual revisão.
Encerramento
Em um ambiente de juros ainda elevados e endividamento recorde, entender o CET e exigir transparência são passos decisivos para evitar surpresas e proteger o orçamento. Antes de contratar, compare ofertas pelo custo total, questione serviços adicionais e avalie se a operação é, de fato, necessária e sustentável. Para especialistas, cautela e informação são as melhores defesas do consumidor.
